O iBEM Cultural nasce como uma iniciativa que busca investigar, valorizar e dar visibilidade às interseções entre dois pilares fundamentais da sociedade contemporânea: a cultura e a energia. Mais do que coexistirem, esses universos se entrelaçam — moldando territórios, influenciando modos de vida e apontando caminhos para o futuro.
A cultura é viva, dinâmica e em constante transformação. Da mesma forma, a indústria de energia evolui ao longo do tempo, impulsionada pela necessidade de adaptação e inovação. Desde os primeiros usos do fogo até as tecnologias mais avançadas de geração renovável, a humanidade tem desenvolvido formas cada vez mais conscientes de utilizar os recursos naturais disponíveis.
Água, vento, sol, barro, palha — elementos essenciais que sustentam práticas culturais e sistemas energéticos — revelam uma conexão profunda entre natureza, saberes tradicionais e desenvolvimento tecnológico.
Em um evento como o iBEM2026, que tem como propósito fortalecer a cooperação e a integração entre diferentes agentes do setor energético, ampliar o olhar para a dimensão cultural é não apenas relevante, mas necessário. Afinal, são as culturas locais que influenciam visões de mundo, orientam decisões e moldam a forma como a energia é produzida, distribuída e consumida.
Nesta primeira edição do iBEM Cultural, escolhemos o artesanato como ponto de partida — expressão genuína da relação entre ser humano, território e recursos naturais. Aquilo que nasce da terra, assim como a energia.
Desejamos que este seja o princípio de muitos encontros entre cultura e energia.
No Recôncavo Baiano, cultura e energia compartilham uma origem comum: a riqueza geológica da região. É da mesma bacia sedimentar que emergem tanto a argila utilizada no artesanato quanto os recursos energéticos que impulsionaram o desenvolvimento do Brasil.
A tradicional cerâmica de Maragogipinho (distrito de Aratuípe), produzida há séculos, é fruto desse solo fértil. Transmitida de geração em geração, essa prática artesanal preserva saberes ancestrais, identidades culturais e uma relação profunda com a natureza.
Foi também nessa mesma região que teve início a exploração de petróleo no país, marcando um capítulo decisivo na história energética brasileira. O Recôncavo, portanto, se estabelece como um território simbólico onde convivem dois mundos: a ancestralidade da produção artesanal e a modernidade da indústria energética.
Se, por um lado, o petróleo impulsionou o desenvolvimento econômico, por outro, evidenciou os limites ambientais de modelos baseados predominantemente em combustíveis fósseis.
Hoje, esse mesmo território aponta para novos caminhos. A transição energética convida à construção de uma matriz mais diversificada, sustentável e equilibrada — que considere não apenas os aspectos econômicos, mas também ambientais, sociais e culturais.
Nesse contexto, a cerâmica de Maragogipinho ganha ainda mais relevância. Mais do que expressão cultural, ela representa um modelo produtivo de baixo impacto ambiental, profundamente conectado aos ciclos naturais.
O Recôncavo Baiano nos conta, assim, uma história contínua: da argila ao petróleo — e do petróleo à diversidade energética.
Um percurso que une passado, presente e futuro, mostrando que desenvolvimento e conservação podem, e devem, caminhar juntos.
Saiba mais através do instagram:
@maragogipinho.rotadobarro e @mulheresdobarromaragogipinho
Na região da Costa do Sauípe, o artesanato também emerge como expressão direta da relação entre comunidade e meio ambiente. O trançado de piaçava, tradição associada a povos originários, como os Tupinambá, é produzido a partir de fibras naturais extraídas da palmeira de piaçava e do licuri.
Esse processo artesanal envolve conhecimento, tempo e técnica — um verdadeiro diálogo entre mãos humanas e recursos naturais:
Etapas do processo:
São mãos que extraem, preparam, moldam e transformam.
Mais do que um produto, o trançado representa um sistema de produção que respeita os ritmos da natureza e utiliza recursos renováveis de forma consciente.
A Costa do Sauípe está inserida em um ecossistema privilegiado, onde há sol, vento e água em abundância — elementos fundamentais tanto para a manutenção da biodiversidade quanto para a geração de energia limpa. Trata-se de um território com enorme potencial para fontes renováveis, como energia solar e eólica, que se apresentam como caminhos promissores para o futuro energético.
Nesse cenário, o artesanato em piaçava dialoga diretamente com os princípios da sustentabilidade: uso responsável dos recursos, valorização do conhecimento tradicional e impacto ambiental reduzido.
Assim como a energia renovável, ele se baseia em ciclos naturais — infinitos, pelo menos na nossa percepção humana — e na capacidade de regeneração da natureza.
Saiba mais através do instagram:
@apsa.porto e @apsa.sauipe
O iBEM Cultural propõe uma ampliação de perspectiva.
Mais do que discutir energia como recurso técnico, convida à reflexão sobre seus vínculos com território, identidade e cultura.
Nas próximas edições, a proposta é expandir esse olhar, convidando empresas e organizações a compartilharem as manifestações culturais presentes nas comunidades onde atuam: fotografias, danças, cantos, festividades, tradições e histórias que coexistem com a geração de energia.
Este é um convite aberto.
Se essa iniciativa ressoar com você, queremos ouvir suas ideias, percepções e contribuições. Envie-nos um e-mail com o assunto “iBEM Cultural” e participe da construção deste espaço.
Porque, no fim, energia também é aquilo que move pessoas, histórias e tradições.
E cultura é, em si, uma forma de energia viva.
A exposição do iBEM Cultural apresenta um recorte simbólico da produção artesanal do Recôncavo Baiano e da Costa do Sauípe, evidenciando como matéria-prima, território e saber tradicional se transformam em expressão cultural.
Cada peça carrega não apenas técnica, mas história, identidade e uma profunda relação com os recursos naturais — os mesmos que também sustentam os sistemas de energia.
A Tulipa de Maragogipinho é um dos ícones da cerâmica local — um vaso ornamental que remete à forma de uma flor.
Produzida no distrito de Maragogipinho, no município de Aratuípe, a peça representa mais de 300 anos de tradição ceramista.
Ela sintetiza três dimensões fundamentais:
Mais do que um objeto decorativo, a tulipa simboliza a continuidade cultural e a capacidade de reinvenção de uma comunidade profundamente conectada à terra.
Descubra mais através do Instagram @maragogipinho.rotadobarro
A peça Boi Bilha nasce do encontro entre tradição e inovação.
Segundo relatos de Taiane Moreira, neta do Mestre Vitorino — criador da obra —, no início da comercialização da cerâmica local predominavam dois referenciais: as peças inspiradas no Mestre Vitalino, especialmente o boi, e a bilha portuguesa.
Movido pelo desejo de criar algo autoral, Mestre Vitorino iniciou um processo de pesquisa e experimentação que culminou em uma peça singular: a fusão entre o boi e a bilha.
O resultado é uma obra que une forma simbólica e funcionalidade, consolidando-se como um marco da cerâmica do Recôncavo Baiano.
O Boi Bilha incorpora técnicas tradicionais, como a aplicação de tauá (pigmento natural avermelhado) e tabatinga (argila branca), responsáveis por suas cores e acabamentos característicos. A tabatinga, em especial, confere leveza visual e um efeito sutil de transparência.
Pela originalidade e relevância cultural, Mestre Vitorino recebeu reconhecimentos importantes, incluindo homenagens da UNESCO, reforçando o valor da peça como patrimônio artístico brasileiro.
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A Baiana de Maragogipinho é uma escultura que traduz identidade.
Produzida artesanalmente, cada peça é moldada e pintada à mão, preservando técnicas seculares da região. A figura representa um dos maiores símbolos da cultura nordestina: a mulher baiana.
Com seus trajes típicos, cores vibrantes e riqueza de detalhes, a Baiana expressa alegria, força e pertencimento. É, ao mesmo tempo, arte e memória — um elo entre passado e presente.
Descubra mais através do Instagram @maragogipinho.rotadobarro
Os cestos de piaçava revelam a força do artesanato ligado aos povos originários, especialmente às tradições tupinambás.
Produzidos a partir das fibras da piaçava e do licuri, esses objetos nascem de um processo cuidadoso e ritmado:
São mãos que extraem, transformam e constroem.
Mais do que utilitários, os cestos representam um modelo de produção sustentável, baseado no uso consciente de recursos renováveis.
As biojóias unem arte, corpo e território.
Produzidas com cerâmica artesanal e pigmentos naturais como tauá e tabatinga, essas peças carregam simbolismos profundos:
Remete à abundância das águas e à vida ribeirinha
Une natureza e delicadeza estética
Inspirado nas moringas tradicionais, evoca práticas ancestrais de armazenamento de água — anteriores à eletrificação
Aqui, o barro deixa de ser apenas objeto e passa a ser linguagem.
Mais informações no Catálogo: https://drive.google.com/file/d/14SmWYtLMkFE7AuOmcHLbYrhFiiTiEufO/view?usp=drivesdk
Ou pelo instagram:
@mulheresdobarromaragogipinho
Inspirada no peixe baiacu e no Rio Jaguaripe, que banha o distrito de Maragogipinho e deságua na Baía de Todos os Santos, a peça representa a conexão entre território, biodiversidade e cultura local. Sua produção combina técnicas de torno e modelagem manual, com pintura floral em tabatinga (engobe orgânico).
Evoca o mar e as marés, simbolizando a relação íntima das comunidades com o ambiente costeiro. É uma peça que traduz memória afetiva e identidade das comunidades ribeirinhas.
Mais informações no Catálogo: https://drive.google.com/file/d/14SmWYtLMkFE7AuOmcHLbYrhFiiTiEufO/view?usp=drivesdk
Ou pelo instagram:
@mulheresdobarromaragogipinho
A mandala em piaçava expressa harmonia e circularidade — conceitos presentes tanto na natureza quanto nos sistemas energéticos.
Produzida com as mesmas técnicas tradicionais de trançado, ela simboliza ciclos, continuidade e equilíbrio.
O colar de esferas em cerâmica complementa essa narrativa, trazendo volumes marcantes e pintura em tauá e tabatinga, inspirados nas paisagens e cores do território.
A união das culturas:
A diversidade das peças apresentadas revela algo essencial: não existe uma única forma de produzir, viver ou transformar recursos — existem múltiplas culturas, múltiplas tecnologias e múltiplas formas de conhecimento.
Ao reunir cerâmica, fibras naturais e biojóias, o iBEM Cultural propõe um diálogo entre diferentes expressões culturais que compartilham um mesmo princípio: a transformação da matéria em significado.
Assim como no setor energético, onde diferentes fontes coexistem — solar, eólica, hídrica —, a cultura também se constrói na diversidade.
Promover essa união é reconhecer que inovação e tradição não são opostos, mas complementares.
E que o futuro — tanto da energia quanto da cultura — depende da nossa capacidade de integrar saberes, respeitar territórios e valorizar as histórias que nos trouxeram até aqui.